Fou d'Amour

um filme de Philippe Ramos

1959. Um homem é acusado de duplo homicídio e decapitado. No fundo do cesto em que acaba de cair, a cabeça deste homem conta a sua história: tudo parecia perfeito na sua vida. Era um pároco admirado pela comunidade, um amante maravilhoso, vivia um paraíso na terra parecia não ter fim.


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Sinopse

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1959. Um homem é acusado de duplo homicídio e decapitado. No fundo do cesto em que acaba de cair, a cabeça deste homem conta a sua história: tudo parecia perfeito na sua vida. Era um pároco admirado pela comunidade, um amante maravilhoso, vivia um paraíso na terra parecia não ter fim.

Entrevista com Philippe Ramos

O caso do padre de Uruffe, um sórdido escândalo noticioso dos anos 50, tinha já sido a inspiração para uma das suas curtas-metragens. O que o fez voltar a trabalhar a mesma história?
Em "Ici-bas", a personagem do padre tinha o peso de todas as ansiedades do mundo em cima dos seus ombros, e o filme tinha uma seriedade sufocante: o dinamismo e lado charmoso do assassino foi posto de lado.
Fiquei com a sensação de que algo tinha ficado inacabado. Com "Fou d’amour", tal como um pintor que revisita um elemento da sua pintura para revelar novas facetas, eu revisitei a minha "tela". Desta vez, felicidade e prazer viriam antes da loucura destrutiva. Usei um tom mais leve, quase cómico, antes de mudar gradualmente a paleta de cores através de pequenos toques para criar a gradação de atmosfera e emoções que se tornam negras e trágicas.

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Ao trabalhar na adaptação, manteve-se fiel ao fait-diver noticioso?
Mantive alguns elementos, como o duplo homicídio, o clube de futebol, o pequeno teatro… A seguir, após mudar os nomes dos intervenientes e dos lugares, dei asas à minha imaginação: na realidade, a jovem vítima não era cega, o padre não foi executado na guilhotina, etc.

Uma vez que o padre real não foi executado na guilhotina, o que o fez representar a sua morte desta forma?
Inspirei-me no feedback que o meu produtor me deu e tinha também a ideia de a história ser contada pela voz de um morto. Assim, "Fou d'amour" estaria sempre assombrado por um contador de histórias sombrio: a decapitada cabeça de um padre… o que é, ao mesmo tempo, cómico e aterrador. Tinha então um elemento-chave que ilustrava na perfeição os aspectos trágicos e cómicos que queria dar ao filme. A escolha da execução foi guiada pela narrativa – não queria falar da sentença de morte. Esse aspecto, tal como a sexualidade do padre, eram subjacentes, não aquilo em que me queria focar. De um ponto de vista histórico e social, o que me interessa, acima de tudo, é ir à intimidade dos seres humanos, mostrar como realmente são, os seus desejos e a sua loucura. Por isso, prefiro fazer retratos cinematográficos, em vez de ser um realizador que examina as grandes questões da sociedade.

Por falar em literatura, Walter Benjamin disse uma vez que o contador de histórias é aquele com quem o leitor se refugia, de maneira fraternal. Concorda com este ponto de vista?
Absolutamente. Tenho de admitir que usei esse sentimento fraternal para tentar e insidiosamente levar o espectador ao abismo, que é um jogo perverso e manipulador… mas acredito no aspecto positivo da palavra, no sentido hitchcockiano da palavra. Somos inundados pelas belas palavras deste homem, que age como vítima, que é eloquente e cheio de humor, enquanto somos levados para um lugar muito negro: a perturbadora imensidão da loucura humana.

Diria que o contador de histórias, a cabeça decapitada, é a personagem principal do filme?
Sim, e para que isso funcionasse, o talento de Melvil Poupaud na voz-off foi crucial. A sua locução suave, a sua forma de fazer com que cada palavra soe plena e cheia faz com que o espectador caia rapidamente no seu charme. Ele gravou toda a voz no plateau, durante as filmagens. O Melvil estava portanto completamente imerso na personagem quando recitou o texto. Muitas vezes fazíamos a gravação nos fins-de-semana. No início da semana, ele voltava a vestir a batina e mergulhar no pequeno universo do padre. Para interpretar esta personagem multifacetada, o Melvil foi ao mesmo tempo atraente e ridículo, inteligente e medíocre, gracioso e patético. Conseguiu encarnar todos estes contrastes na rodagem, com subtileza e generosidade.

Ao seu lado temos muitos dos actores com quem já trabalhou, incluindo Dominique Blanc.
Sim, queria trabalhar com ela de novo, tal como com o Jean-François Stévenin e o Jacques Bonnafé. Uma frase dita em off, que foi cortada na montagem, referia, relativamente à personagem interpretada pro Dominique: "Como poderia eu deixar uma mulher com tal elegância de espírito?" Esta expressão, "elegância de espírito" resume perfeitamente o que acho desta grande actriz e do seu refinado desempenho. Mesmo quando está a dizer os diálogos mais mundanos da vida do dia-a-dia, Dominique é capaz de dar uma enorme intensidade a cada movimento, cada entoação. Para mim, esta mistura entre aparente indiferença e poder são o que torna bela a sua interpretação.

Nunca tinha trabalhado com Diane Rouxel. Como se conheceram?
Conhecemo-nos graças a Isabelle de La Patellière, a sua agente. A Diane tinha acabado de fazer o “The Smell of Us” do Larry Clark e estava prestes a começar “La tête Haute” da Emanuelle Bercot. Interpretar uma personagem cega é difícil. Durante um ensaio, a Diane percebeu que conseguia mover os olhos em diferentes direcções e conseguir olhares muito específicos. Esta descoberta “técnica” foi determinante para nós pois deu-nos uma base realística do trabalho que teríamos de alcançar. Para o resto, a sua juventude, beleza, e a inocência que emana dela, contribuíram na perfeição para construir a imagem de o padre tem dela: para ele, ela é um ícone.

Para abordar a sua forma específica de trabalhar, parece-me crucial que partilhe a forma como começou a fazer filmes.
Durante a Escola secundária, ainda não tinha nenhuma ligação em particular com cinema (sonhava em trabalhar em banda desenhada), e uma professora pediu-nos para fazermos um cartoon. Adorei de tal forma a experiência, que comprei uma Bauer Super 8 e comecei a fazer filmes. Não tinha cultura cinéfila. Fazia livros de banda desenhada que tentava representar em live-action com colegas de turma que de repente se tornavam actores. Fiz uma dúzia de filmes em Super 8, tanto curtas como longas. Portanto, durante muitos anos, trabalhei por conta-própria com a minha fábrica caseira.

O facto de ser o director de fotografia e montador dos seus próprios filmes está em consonância directa com essa ética de “fábrica-caseira”?
Sim, não há dúvida que todos aqueles anos a trabalhar em Super 8 estão profundamente enraizados em mim. Hoje em dia, embora me tenha rodeado de colaboradores importantes, eu também preciso de moldar o material para poder compreendê-lo e dominá-lo. Portanto, sou eu que decido os aspectos cénicos, trabalho na identidade visual do filme e monto. Esta forma de trabalhar, que vem dos anos em que era realizador amador, é uma necessidade, como aqueles pintores que misturam pigmentos de cor ele mesmos, embora pudessem ter especialistas a fazê-lo. Ao fazer isso, esses pintores encontravam uma forma de concentração, até inspiração para alguns, e aumentava o seu processo criativo. É exactamente o mesmo para mim.

Quando fala, refere frequentemente o processo e trabalho dos pintores.
Estranhamente, olhar para pinturas inspira-me mais para fazer filmes do que ver outros filmes… como se me despertasse mais desejo. Temas, personagens, gestos, cores, formas, tudo na pintura me inspira e encoraja. Poderia inclusivamente dizer que os meus verdadeiros mentores não são cineastas, mas sim pintores. Por falar nisso, quando estudei história de arte, costumava dizer que era a melhor escola de cinema do mundo. Como se, ao aprender a forma de trabalhar e viver a sua própria arte de cada pintor, aprenderia a fazer filmes… afinal de contas, talvez não estivesse errado!

Faz storyboards dos seus filmes... Mais uma vez está ligado à ilustração.
Esse pequeno livro ilustrado é uma peça de trabalho muito valiosa para mim. Tem todas as minhas escolhas a nível de argumento, direcção de arte, identidade visual, montagem… é uma forma específica do filme, uma estrutura construída e pré-existente, na qual os actores existem, e podem dar forma. Um estilo em que procuro potenciar pontos de ruptura e contrastes. A propósito, esta intenção de confrontar coisas, de separá-las, está lá em todos os passos do meu trabalho, do guião à montagem. É só ver a construção do filme: em duas peças… cabeça e tronco!

Falámos das múltiplas facetas do seu carácter, e acaba de mencionar uma forma fragmentada, porquê insistir tanto em linhas múltiplas ou quebradas?
Talvez porque me pareça que são um perfeito reflexo da vida.

Filmografia Seleccionada de Melvil Poupaud

Fidelio, L’Odyssée d’Alice de Lucie Borleteau (2014)
Laurence Para Sempre de Xavier Dolan (2012)
Mistérios de Lisboa de Raoul Ruiz (2010)
Um Conto de Natal de Arnaud Desplechin (2008)
Um Homem Perdido de Danielle Arbid (2007)
O Tempo Que Resta de François Ozon (2005)
Eros Terapia de Danièle Dubroux (2004)
Shimkent Hotel de Charles De Meaux (2002)

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Feelings de Noémie Lvovsky (2003)
Combate de Amor Em Sonho de Raoul Ruiz (2000)
Geneologias de Um Crime de Raoul Ruiz (1997)
Conto de Verão de Éric Rohmer (1996)
As Pessoas Normais Não Têm Nada de Especial de Laurence Ferreira Barbosa (1993)
La Fille de 15 ans de Jacques Doillon (1989)
A Ilha do Tesouro de Raoul Ruiz (1985)
A Cidade Dos Piratas de Raoul Ruiz (1984)

Filmografia Seleccionada de Dominique Blanc

Le Fils de Joseph de Eugène Green (2016)
Peur de rien de Danielle Arbid (2015)
L’autre  de Patrick Mario Bernard and Pierre Trividic (2008)
Capitaine Achab de Philippe Ramos (2008)
Les Amitiés maléfiques de Emmanuel Bourdieu (2005)
Um Casal Encantador de Lucas Belvaux (2002)
Em Fuga de Lucas Belvaux (2002)
Depois da Vida de Lucas Belvaux (2002)

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The Pornographer de Bertrand Bonello (2001)
The Black Beach de Michel Piccoli (2001)
Filha de Soldado Nunca Chora de James Ivory (1998)
Quem Me Amar Irá de Comboio de Patrice Chéreau (1998)
E Então de Michel Piccoli (1997)
A Raínha Margot de Patrice Chéreau (1993)
Indochina de Régis Wargnier (1991)
Plaisir d’amour  de Nelly Kaplan (1990)
Os Malucos de Maio de Louis Malle (1989)
Uma Questão de Mulheres de Claude Chabrol (1988)

Filmografia Seleccionada de Diane Rouxel

La Tête Haute de Emmanuelle Bercot (2015)
The Smell of Us de Larry Clark (2015)

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Filmografia de Philippe Ramos

LONGAS-METRAGENS

FOU D’AMOUR
2015, 105 mn
Com: Melvil Poupaud, Dominique Blanc, Diane Rouxel, Lise Lamétrie, Jean-François Stévenin, Jacques Bonnaffé

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JEANNE CAPTIVE
2011, 90 mn
Com: Clémence Poésy, Thierry Frémont, Mathieu Amalric, Liam Cunnimgham, Louis-Do de Lencquesaing, Jean-François Stévenin, Johan Leysen.
Festival de Cannes 2011 – Quinzena dos Realizadores

CAPITAINE ACHAB
2007, 94 mn
Com: Denis Lavant, Dominique Blanc, Jacques Bonnaffé, Jean-François Stévenin, Philippe Katerine, Carlo Brandt, Hande Kodja, Mona Heftre.
Award for Best Director at the Locarno International Film Festival 2007
Prémio de Melhor Realizador e prémio FIPRESCI no Festival de Locarno 2007

AFAREWELL HOMELAND
2002, 80 mn
Com: Françoise Descarrega, Philippe Garziano, Frédéric Bonpart.
Prémio Especial do Júri no Albi Festival 2003

CURTAS METRAGENS
CAPITAINE ACHAB 2003, 22 mn
NOAH'S ARK 1999, 57 mn
ICI BAS 1996, 26 mn
VERS LE SILENCE 1995, 35 mn
MADAME EDWARDA 1992, 20mn